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Guia · Custos de importação

Demurrage:
o que é, quem paga e o teto que o STJ criou

A sobreestadia de contêiner é a conta que mais surpreende importador no Brasil — e desde 2025 ela tem limite. Este guia explica como ela nasce, quem responde e o que fazer para não pagar.

Atualizado em outubro de 2026 · Leitura de 8 minutos

O que é demurrage (e o que não é)

Demurrage — ou sobreestadia — é o valor que o armador cobra pelo uso do contêiner além do prazo livre combinado. O contêiner não é seu: ele é um equipamento do armador, emprestado para a viagem. Passou do prazo de devolução, começa a diária.

Três contas diferentes costumam ser confundidas, e confundi-las custa dinheiro porque cada uma tem dono, prazo e forma de negociação própria:

CobrançaDo que se trataQuem cobra
Demurrage Uso do contêiner além do free time, enquanto ele ainda está no porto ou terminal Armador
Detention Uso do contêiner depois de retirado do porto, no trajeto e na sua planta, até devolver vazio Armador
Armazenagem Ocupação do espaço físico no terminal ou no recinto alfandegado Terminal / recinto

Alguns armadores vendem os dois primeiros juntos, no chamado demurrage & detention combinado, com um único prazo livre que cobre o ciclo inteiro. Vale perguntar qual é o seu caso antes do embarque: o combinado costuma ser mais previsível, mas nem sempre é mais barato.

Free time: quando o relógio começa

O free time é o prazo livre de cobrança, contado em dias corridos — e corridos quer dizer que sábado, domingo e feriado contam. No marítimo, a contagem começa normalmente na descarga do contêiner no porto de destino, não na data em que você recebeu os documentos nem na data do desembaraço.

O prazo padrão de mercado costuma ficar entre 7 e 15 dias, mas é negociável, e essa é a informação mais útil deste guia: o momento de pedir mais free time é antes do booking, junto com a tarifa. Depois que a carga embarcou, o poder de negociação acabou. Para carga que depende de licença, anuência de órgão ou documento que costuma atrasar, negociar 21 dias na largada é muito mais barato que discutir diária depois.

O erro mais comum: achar que o relógio só começa quando a carga é liberada. Não começa. Ele corre durante a conferência documental, durante o canal vermelho, durante a greve e durante o feriado. O prazo é do contêiner, não do seu processo.

Quanto custa

A diária é progressiva: começa baixa e sobe por faixas, justamente para empurrar a devolução. Uma estrutura comum no Brasil funciona assim, por contêiner:

  • primeira faixa, logo após o free time: valores iniciais mais baixos;
  • segunda faixa, depois de alguns dias: valor por dia costuma dobrar;
  • terceira faixa em diante: patamar mais alto, sem teto na tabela.

Os valores variam por armador, por porto, por tipo de equipamento e por época do ano — contêiner reefer, por exemplo, custa bem mais que um dry, porque além do equipamento há energia e monitoramento. Por isso não existe tabela única: o número que vale é o da sua tarifa, e ele deve estar por escrito na cotação. Se a sua cotação de frete não traz a tabela de demurrage, peça antes de fechar.

Quem paga — e por que o agente de carga entra na conta

Na prática, quem paga é quem está na cadeia do contrato de transporte. O armador cobra de quem reservou o contêiner e de quem assinou o termo de responsabilidade de devolução na retirada — normalmente o importador ou a comissária que o representa.

Mas a cadeia não para aí. Quando o embarque sai por um NVOCC — um agente de carga que emite conhecimento de embarque próprio, o House BL — esse agente figura como consignatário perante o armador. Ou seja: ele é transportador contratual, e responde na linha de frente, cobrando depois de quem contratou. É por isso que agente sério pede carta de responsabilidade por demurrage e detention antes do booking: não é burocracia, é a única forma de a conta ter dono definido quando a carga trava.

A decisão do STJ que criou um teto

Durante anos, a sobreestadia foi tratada como indenização, bastando comprovar o atraso na devolução. A conta corria sem limite enquanto o contêiner não voltasse, e não era raro a cobrança superar em muito o valor do próprio equipamento.

Isso mudou. Em 2025, no julgamento do REsp 1.577.138/SP, a Quarta Turma do Superior Tribunal de Justiça entendeu que a demurrage tem natureza de cláusula penal, e não de indenização. A consequência é direta: aplicam-se os artigos 412 e 413 do Código Civil. O artigo 412 diz que a cláusula penal não pode exceder o valor da obrigação principal — na prática, o valor do próprio contêiner. O artigo 413 obriga o juiz a reduzir a penalidade manifestamente excessiva.

O armador ainda pode cobrar acima desse limite, mas aí precisa provar prejuízo material adicional — custo de reposicionamento do equipamento, afretamento, perda operacional concreta. Não basta alegar.

No mesmo período, a ANTAQ caminhou na mesma direção com o Acórdão 521/25, restringindo a cobrança aos casos em que o atraso é efetivamente responsabilidade do usuário.

O que isso muda para você, na prática: o pior cenário deixou de ser "a diária corre para sempre" e passou a ser, como regra, algo próximo do valor de um contêiner. É um risco que cabe em provisão.

E o que não muda: o teto se faz valer discutindo. É decisão de turma, não súmula, e depende do caso concreto. Continuar devendo menos ainda é melhor do que ter razão depois.

Sete formas de não pagar demurrage

  1. Negocie o free time junto com a tarifa. É grátis antes do booking e impossível depois. Carga com anuência de órgão merece 21 dias.
  2. Mande a documentação antes de a carga chegar. Invoice, packing list, certificado de origem e licenças prontos na saída, não na chegada.
  3. Conheça a data real de atracação, não a estimada. O ETA muda. Acompanhe a programação do navio na semana da chegada.
  4. Marque o fim do free time na agenda, com alerta três dias antes. A maioria das demurrages caras nasce de alguém que simplesmente perdeu a data.
  5. Para carga nova ou sensível, prefira LCL. Em carga solta o contêiner é do consolidador: não há demurrage no seu nome, apenas armazenagem do terminal.
  6. Programe a devolução do vazio. O detention só para quando o contêiner volta ao depósito indicado — e depósito tem agenda, principalmente em fim de mês.
  7. Peça a tabela por escrito na cotação. Faixas, valores e data de início da contagem. Sem isso você não tem como conferir a fatura nem como contestar.

Dúvidas frequentes

Demurrage conta sábado, domingo e feriado?

Em regra sim, a contagem é em dias corridos. Existem acordos específicos com contagem em dias úteis, mas é exceção e precisa estar escrito.

Se a carga ficou retida pela fiscalização, eu pago mesmo assim?

Esse é um dos pontos mais discutidos no Judiciário, e há decisões afastando a cobrança quando a retenção decorre de ato da Administração, fora do controle do importador. O Acórdão 521/25 da ANTAQ vai na mesma linha. Não é automático: depende de prova de que o atraso não foi seu.

Demurrage e armazenagem são a mesma coisa?

Não. Demurrage é do armador, pelo uso do contêiner. Armazenagem é do terminal, pelo espaço ocupado. Você pode estar pagando as duas ao mesmo tempo, por motivos diferentes, e precisa negociar cada uma com quem cobra.

Posso negociar depois que a cobrança chegou?

Pode, e vale tentar — principalmente agora, com o entendimento do STJ sobre o limite. Mas a negociação depois da fatura emitida parte de uma posição muito pior do que a negociação do free time antes do embarque.

Sua cotação de frete mostra a tabela de demurrage?

Na Dollinger Global, free time, taxas locais e condições de devolução vão escritos na cotação, antes do embarque. Somos agente de carga — o despacho continua com a sua comissária.

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